domingo, 27 de março de 2016

Por que não é...

Uma criança sonha
Anseia pela vida
                        [Que chega pouco]
E por mais que seja medonha
Há esperança ardida


Uma menina sonha
Essa ilusão se cria
                        [Que chega pouco]
E por mais que seja tristonha
Há sinais de cerrações iludidas

Uma mulher sonha?

Porque não é pouco
                        [Que chega pouco]

O desamor da vida
                        [Que chega porco]

Porque não é luta
                        [Que chega baixo]

O apelo à vida
                        [Que chega solo]

Porque não é fera
                        [Que chega morto]

A intensidade da lida
                        [Que chega vivo]

Porque não é vida
                        [Que chega pouco]

A emoção feliz de alegria
                        [Que chega pouco!]

Que chega pouco...

Porque não é...

domingo, 21 de setembro de 2014

Distante



Distante.
Em um instante.
E no respirar ofegante.
O impulso inconstante,
Constante.
                        
Sem palavra falante.
A dor e a alegria, doravante,
Infante, diante
Do terrível silêncio maçante.
Ocupante.

Sem afeto entre o ante,
Sem colírios e apartante,
Sem verdade hilariante.
Distante, simplesmente distante.
Fez-se descrença a primitiva do optante.
Branco elefante.

É no temor do insignificante.
A espera, pulsante
Do momento importante
Em que o brilho doravante,
Mutante
Urge, a crescer triunfante.
Emocionante.

Muda-se  o semblante
Recria-se o fundante.
Farsante?
Alegria de mão-ante
Construção do final de um durante?
Mas, o momento, avante.
Distante.

Rio, 21 de Setembro de 2014.

sábado, 7 de setembro de 2013

Meu mundo



Não crio versos.
Imito o vazio deixado pelos poetas.
versos que não sei,
De versos, nada sei
De vidas, nada hei de ouvir.



Possuo alguma razão?
Talvez aquela obscura,
Do qual tratam os nobres doutores.



A razão dos loucos indecisos
Que só dizem o que sentem,
E esquecem de fingir
Para tornar-se de si em si


Não crio versos,
Imagino palavras soltas.
Toco uma confusa canção
E deixo-me esquecer por sentimentos inúteis.


Rio, 20 de Janeiro de 2011.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Hoje

Sigo o caminho.
Tem que seguir.
Faço daquelas palavras não ditas
O corpo fiel das minhas ilusões.



Não dá para ser passarinho,
Não dá para bicar as palavras.
Não dá do olhar e o espinho
Viver no indivíduo que sequer se espraia.



Como esse dia que lembra o pouco do fruto,
Não consigo lembrar-me de nada.
Só da sensação vazia do que não se viveu, 
Aquele caminho que jamais morreu na ilusão.



O erro foi achar que se criou.


Remeto-me para afundar-te,
E felicitar-te.
Que dancemos na chuva
Mesmo que em outros universos.




Rio, 22 de Agosto de 2013

segunda-feira, 5 de agosto de 2013

Tudo é permitido para quem?

Revendo os livros empoeirados, lembrei que tinha, há certo tempo, pensado em escrever algumas coisas sobre Dostoiévski e a cidade, principalmente após uma releitura mais detalhada da obra Os Irmãos Karamazóv. Diante do cenário em que vivemos, aliado à - minha - correria do cotidiano, retomo aqui a ideia do personagem "ovelha-negra" de Dostoiévski, mas com uma das frases que marcou para sempre, primeiro pela sua singularidade e segundo pelo se poder de reflexão em uma sentença tão condensada em poucas palavras: "Não existe a mortalidade da alma, tampouco a virtude. Logo, tudo é permitido.".
Explico agora o motivo de sua genialidade com palavras do próprio - e singular - personagem por outro personagem:

"É uma teoria sedutora para os canalhas... A própria humanidade encontrará força em si mesma para viver em função da virtude, mesmo sem acreditar na imortalidade da alma!"

Ivan Karamázov é o personagem, da coleção das obras dostoievskianas, caracterizada pelo ateu, em crise e conflito interno por uma crise sem fim, exatamente pela descrença na virtude e na imortalidade. Dostoiévski, que deixara bem claro seus heróis em profunda sinergia com a paz de espírito e a bondade, atenta com a polifona característica de suas narrativas o papel do bem, do mal, do jocoso e profundo, tudo ao mesmo tempo seguido pelo inesperado, pelo acaso e pela surpresa do acontecimento. Ivan encontra-se em um mar infinito de uma angústia que não cessa, e que cai em todos os aspectos conforme o decorrer da história da família Karamázov. Ivan escrevera um artigo publicizando seu ateísmo, no calor da publicação das obras de Marx e Engels, citadas direta ou indiretamente pelo autor como "a chegada das ideias socialistas". Ivan é um intelectual em ascensão não só na Rússia, mas em boa parte da Europa ocidental. Seu artigo aparenta dois lados: um, seu próprio pedantismo em citar indiretamente a si em um trabalho cientifico e segundo, construir bases de cunho revolucionário para a comunidade científica europeia, ainda mais a russa, marcada pelo profundo ideal cristão, mesmo com a vinda da modernidade.
Quando ele aponta que a virtude é uma invenção construida sob bases políticas, assim como a imortalidade da alma, ele aponta a necessidade de pensarmos o quanto podemos deixar de lado as fronteiras e os limites construídos por relações externas de poder para então definirmos as nossas próprias liberdades, falseadas por uma série de escolhas forjadas.
A questão que indico aqui como fundamental, a partir da perspectivas das relações de poder é: para quem tudo é permitido?
Passamos por uma série de mudanças políticas no Brasil e na cidade do Rio de Janeiro. Dentre elas, o movimento e a mobilização social levantada por uma série de pessoas, já indignadas com todas as questões que envolvem o uso e a apropriação do espaço, ou como diz Lefebvre, aquela apropriação que não propõe a sua propriedade, mas sua legitimidade enquanto formador e construtor constante de seus espaços. A cidade tem sido paulatinamente apropriada por uma minoria que define o que será, qual será a liberdade, qual será o meio de usá-la, ou não, dentro da cidade.
Outro pensador, Giorgio Agamben, tem sido muito discutido para apontar o que tem acontecido no Rio de Janeiro do final da primeira década do século XXI para o início desta. A violência existe? Quem a gera? Quem se permite, toma propriedade dela e gera mais violência, mesmo calada, mesmo velada? São questões que precisamos nos perguntar antes de nos calarmos, antes de acharmos que estamos em paz, de bem com nós mesmos e com nossas vidas. 
Mesmo - e respeitando as diversidades e a própria discussão que isso envolve - que tenhamos vidas e mais vidas, essa vida que temos é uma só. É a Isis que tem um papel de mudança tanto quanto qualquer outra pessoa. E esse definitivamente é também parte do nosso sentido, de nos apropriarmos de nós mesmos para construirmos conscientemente nossos espaços de crítica e de valor do que queremos ser. Onde a virtude e a imortalidade da alma não sejam pautas para as apropriações, e sim as permissões serem legítimas de cada um e cada uma, construindo neste tempo e neste espaço a promoção e a assunção de uma sociedade diversa, porém latente de desejos e de liberdades.


terça-feira, 28 de maio de 2013

A escolha por trás das escolhas

Sou geógrafa. Isso já foi motivo para risos e piadas por esses dez anos de tomada a decisão. E depois de dez anos a gente descobre que a decisão veio muito tempo depois da escolha.
Na verdade a decisão de ser geógrafa veio, de fato, há 10 anos, no dia 29 de Maio de 2003, dia do geógrafo. Foi quando me dei conta que para realizar aquilo que lá no fundo eu sonhava, eu precisava ser geógrafa. Claro que com dezessete anos você dificilmente vai ter a profundidade e a complexidade do ato e do fato de escolher, de decidir. Mas estava ali, na minha cara, a escolha que me deixou levar por essas andanças a vida toda. A escolha de ser geógrafa.
E ser geógrafa – a gente descobre baixinho, no sussurro do viver – não é o diploma, nem necessariamente a vivência. É saber do sacrifício que leva ser e estar em um lugar pensando em vários outros lugares, é querer conhecer e compartilhar os espaços e seus movimentos. Isso, pelo menos em mim, me faz ser e querer ser geógrafa.
Lembro a primeira imagem que veio na minha mente quando me matriculei no curso de graduação, e me deram as disciplinas e ementas. E pensando hoje, era mais ou menos a imagem e o riso de quando me vejo fazendo as minhas geografias em lugares aqui e acolá.
Porém, exatamente dez anos após o primeiro dia do geógrafo que comemorei, me vem sempre aquela angústia acadêmica de saber se fiz a escolha certa diante do mundo lá fora que pode se abrir. E respondo também baixinho, para ninguém ouvir, que o mundo também geografa suas escolhas a partir da gente, e que um pouco de cada um é um pouco de geógrafo também, cartografando e sendo um pouco desse mundo estranho, desse planeta que nos carrega e é carregado pela gente.
E ser geógrafa também me ajudou a saber quando vai chover, quando vai fazer sol, quando tenho que brigar e quando tenho que chorar por alguma desigualdade ou alguma injustiça, seja minha ou do outro. Ensinou-me também, que as marcas que construímos nessas andanças pra lá e pra cá são geografias, são grafias no nosso espaço e nos nossos mundos. Ensinou-me que ainda não sabemos o quanto as escritas marcadas pela gente podem mudar o mundo, o nosso e o dos outros.
Ser geógrafa e ser o dia do geógrafo não é muita coisa, depois de dez anos vivendo parte da geografia, diante de tantas marcas que descobrimos e lemos – também como geógrafos – nesse planeta construído também pela gente. Porque todo dia exercemos um pouquinho o papel de ser geógrafo, mesmo quando dizemos: “Mas professora, geografia é muito chato!”.
Nesses 10 dias do geógrafo em que sei e comemoro intimamente a data, ainda não aprendi a ler minhas geografias.
Mas escolhi ser geógrafa.

"Eu sou um leão de fogo
Sem ti me consumiria
A mim mesmo eternamente
E de nada valeria
Acontecer de eu ser gente
E gente é outra alegria
Diferente das estrelas..."


Rio, para o dia 29 de Maio de 2013

terça-feira, 23 de abril de 2013

Para lulu, de hoje há um dia...

Não ter medo do escuro

E sim da claridade

Não ter medo do abuso

Ter, sim, da saudade.

Aperta no rosto, nas rusgas

Não tem jeito

Aquele que parte sempre vive de

saudade.

Um planeta só

Só isso que peço

Nem para morar, nem para ser

Ainda de lá

Só para desapertar deste mundo

Só para viver.


Senador Câmara, Rio de Janeiro, dia de São Jorge, 23 de abril de 2013.